31 de dez. de 2008

Fim de Ano




E que venha um 2009 melhor.

24 de dez. de 2008

Natal

Um deles já foi bem diferente.


8 de dez. de 2008

Ocorrência - por Alex Martire

O-C-O-R-R-Ê-N-C-I-A


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29 de nov. de 2008

In: YOSHIKAWA, Eiji, "Musashi", v.1

Musashi voltou-se para contemplar o tumulto e sorriu sob o sombreiro. Parado havia já algum tempo na frente da modesta oficina de cerâmica, anexa ao casebre em questão, estivera observando longamente os movimentos do torno e da espátula, absorto como uma criança que contempla um brinquedo.

Logo seu olhar foi outra vez atraído para o interior da oficina. Mas os dois artesãos que ali trabalhavam em total concentração nem sequer haviam erguido as cabeças, seus espíritos parecendo presos ao barro que moldavam.

Contemplando o trabalho dos homens, em pé no meio da rua, Musashi sentiu-se, também ele, tentado a moldar aquela argila. Sempre tivera gosto por esse tipo de trabalho, desde a infância. Achou-se capaz de moldar algo simples, como uma tigela.

Contudo, ao observar com atenção o trabalho de um dos artífices — um homem de quase 60 anos que, naquele instante, com a espátula e a ponta dos dedos moldava uma tigela — repreendeu-se pela presunção:

“Quanta habilidade! É preciso muita dedicação para se chegar a este ponto!”, reconheceu.

Ultimamente, o respeito que lhe inspirava qualquer obra superior, fruto do trabalho e da arte alheia, despertava com freqüência reflexões dessa natureza no espírito de Musashi. Compreendeu então com clareza que não era capaz de fazer nada sequer semelhante.

Observando melhor, notou que os dois homens haviam exposto sobre uma prancha de madeira, a um canto da oficina, diversos tipos de porcelana como pratos, vasilhames, cabaças e jarras, e neles haviam afixado etiquetas de preços, aliás módicos, com o intuito de vendê-los aos romeiros que transitavam por aquela rua. A consciência de que até mesmo a fabricação de porcelanas baratas como essas exigia tanta técnica e concentração, fez com que Musashi percebesse quão longe ainda estava de atingir sua meta na longa caminhada que iniciara rumo à própria formação guerreira.

A bem da verdade, Musashi havia andado bastante orgulhoso de si, pois nestes últimos 20 dias viera desafiando algumas academias mais famosas da cidade — entre elas, a de Yoshioka Kenpo — e, como resultado, havia percebido que sua habilidade como espadachim, contrariando a própria expectativa, estava longe de ser desprezível.

Viera a Kyoto — cidade que abrigava o castelo imperial, a antiga sede de inúmeros xogunatos — certo de que ali encontraria os melhores guerreiros e de que para ali convergiriam os generais mais hábeis, os soldados mais valentes do país; nenhuma academia por ele visitada, porém, fora capaz de lhe inspirar respeito, de levá-lo a curvar-se com deferência ao se retirar.

Pelo contrário: cada vitória sobre seus oponentes provocava em Musashi indizível tristeza, levando-o a afastar-se dessas academias desiludido.

— Não entendo: ou sou muito mais hábil do que imaginava, ou eles muito ineptos.

Se os guerreiros com quem se batera nas academias visitadas até aquele dia eram considerados os melhores da atualidade, quais seriam então os atuais valores da sociedade? Musashi não conseguia discernir claramente.

Mas nesse instante os ceramistas lhe haviam mostrado que não poderia se dar ao luxo da presunção: até mesmo um velho artesão, de cujas mãos saíam rústicas peças de porcelana valendo apenas alguns trocados — descobrira Musashi depois de atenta observação — possuía essa aterradora capacidade de concentração, base de toda a sua técnica e arte. E o que ganhava o velho homem em troca dessa habilidade? Mal tinha o que comer, e vivia num miserável barracão. A vida não podia ser tão fácil quanto chegara a pensar, com certeza.

Mentalmente, Musashi dirigiu uma respeitosa reverência ao ancião sujo de barro, absorto em seu trabalho, e afastou-se em silêncio. Ergueu a cabeça e fixou o olhar na íngreme ladeira que conduzia ao templo Kiyomizudera.

26 de nov. de 2008

Monólogo de Molly Bloom

In: JOYCE, James, Ulisses

o sol brilha para você ele me disse no dia em que estávamos deitados entre os rododendros no cabo de Howth com seu terno de tweed cinza e seu chapéu de palha no dia em que eu o levei a se declarar sim primeiro eu lhe dei um pedacinho de doce de amêndoa que tinha em minha boca e era ano bissexto como agora sim há 16 anos meu Deus depois daquele longo beijo quase perdi o fôlego sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim certo somos flores todo o corpo da mulher sim foi a única coisa verdadeira que ele me disse em sua vida e o sol está brilhando para você hoje sim por isso ele me agradava vi que ele sabia ou sentia o que era uma mulher e tive a certeza de que poderia sempre fazer dele o que eu quisesse e dei-lhe todo prazer que pude para levá-lo a me pedir o sim e eu não quis responder logo só fiquei olhando para o mar e para o céu pensando em tantas coisas que ele não sabia em Mulvey e no Sr. Stanhope e Hester e papai e no velho capitão Groves e nos marinheiros que brincavam de boca-de-forno de cabra-cega de mão-na-mula como eles diziam no molhe e a sentinela defronte à casa do governador com a coisa em redor de seu capacete branco pobre diabo meio assado e as moças espanholas rindo com seus xales e seus pentes enormes e os pregões na manhã os gregos judeus árabes e não sei que diabo de gente ainda de todos os cantos da Europa e na rua Duke e o mercado de aves cheio de cacarejos em frente a casa de Lalaby Sharon e os pobres burricos tropicando meio adormecidos e os vagabundos encapotados dormindo na sombra das escadas e as enormes rodas dos carros de boi e o velho castelo velho de milênios sim e aqueles belos mouros todos de branco e de turbante como reis pedindo a você que se sente em suas minúsculas barracas e Ronda janelas velhas de pousadas olhos espiando por detrás de rótulas para que seu amante beije as grades de ferro e as tabernas semicerradas à noite e as castanholas e a noite que perdemos o barco em Algeciras o vigia rondando sereno com sua lanterna e Oh aquela terrível torrente profundofluente Oh e o mar carmim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim todas as estranhas vielas e casas rosa e azul e laranja e os rosais e os jasmins e os gerânios e os cáctus e Gibraltar quando eu era jovem uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa em meus cabelos como as moças andaluzas ou de certo uma vermelha sim e como ele me beijou sob o muro mourisco e eu pensei bem tanto faz ele como outro e então convidei-o com os olhos a perguntar-me de novo sim ele perguntou-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro enlacei-o com meus braços sim e puxei-o para mim para que pudesse sentir meus seios só perfume sim e seu coração disparando como louco e sim eu disse sim eu quero Sim.

22 de nov. de 2008

Everlast - "White Trash Beautiful"

Um vídeo triste para esta tarde chuvosa...


20 de nov. de 2008

Sigur Rós - "Viorar Vel Til Loftarasa"

Acabei de descobrir essa banda... e quão maravilhosa ela é!
A Islândia, terra dos meus queridos vikings, sempre foi um centro cultural de destaque e sensibilidade. Deixo, então, com vocês, esse vídeo: um espetáculo de imagens em câmera lenta, que trata lindamente da questão da homossexualidade. Legendas em inglês.

Só custará 7 minutos de suas vidas.


16 de nov. de 2008

LITTELL, Jonathan, "As Benevolentes"

Sim, ele é feio pra caramba!
Porém, o que esse sujeito fez não é tarefa para qualquer um. Convenhamos, redigir 900 páginas não é algo fácil. Dificilmente uma obra desse tamanho pode ser ruim, basta citar Guerra e Paz, O Senhor dos Anéis, Ulisses, Musashi... e a lista segue.

Littell e sua "As Benevolentes" corrobora a regra e desgraça os olhos do leitor. Ainda quero entender o porquê de tantos escritores apelarem à Grécia as influências para redigirem, mas, deixando isso pra lá, o título cai perfeitamente bem à obra. Ésquilo e sua tragédia inspiraram Littell, e, tal como o heleno, esse estadunidense nascido em 1967 fala de crimes, sangue e dramas psicológicos. E nisso Littell é estupidamente perfeito! A trama envolve as memórias de um Obersturmbannführer (tenente-coronel) chamado Max Aue que, dentre as diversas funções realizadas, esteve incluída a ida ao front de Stalingrado e o trato direto com Auschwitz. E Aue é cru. Complexado. E tem de esconder sua homossexualidade dos demais nazistas. O livro tem por balizamento todo o decorrer da Segunda Guerra até a derrota em 1945.

Um livro excelente, sem brincadeira, é ótimo! Porém, é de uma degustação dificílima... Degustação talvez nem seja o termo correto, parece mais que o leitor é obrigado a engolir todas as palavras, sentindo apenas o gosto amargo presente. Choca? Sim, diversas vezes. Mas as coisas não devem ser muito diferentes: basta ser humano pra perceber que as coisas podem desabar de uma hora para outra. Escatologia e violência escorrem do livro, mas sem fazer disso o centro.

Entre os inúmeros "parabéns" que se deve dar a Littell, certamente, o esmero histórico é um deles. Quase cinco anos entre pesquisas e redação (publicado em 2006) fizeram com que o autor passeie por toda parte administrativa, burocrática da Alemanha nazista. Sorte nossa! As coisas, que antes pareciam nebulosas para mim, agora ganham um aspecto mais inteligível. E, para completar, a edição brasileira (ed. Objetiva/Alfaguara) traz um glossário com os termos alemães que o autor em momento algum explica durante a narrativa.

Um livro pesadíssimo, mas gratificante, certamente. Uma ficção repleta de verossimilhança.

Despeço-me com um trecho:
"Senti de repente todo o peso do passado, do sofrimento da vida e da memória inalterável e fiquei sozinho com o hipopótamo agonizante, alguns avestruzes e os cadáveres, sozinho com o tempo e a tristeza e a dor da lembrança, a crueldade da minha existência e a minha morte ainda por vir. As Benevolentes haviam encontrado meu rastro".





E agora estou livre para me enlouquecer com o meu Finnegans Wake...


14 de nov. de 2008

"Berserker" (excerto) - por Alex Martire

Trecho do meu livro que sairá no começo do ano que vem.

"Mas isso não vem ao caso. Somente lembrei-me do assunto graças aos meus vizinhos que habitam imediatamente acima de mim. Um moleque insolente casado com uma bêbada. O bebê teve o azar de nascer num lar de berros e barulhos. Como eles atormentam! Chegam de madrugada e resolvem arrastar móveis e derrubar coisas pelo apartamento todo. Além, é claro, de possuírem um cão do inferno que ladra sem parar e corre por todo o ambiente. Trisc, trisc, fazem suas unhas arranhando o piso sobre mim. Tiram o nosso sono. A briga até que está boa: reclamações, multas. Mas continuam a atormentar. O vizinho ao lado deles já perdeu a paciência; algumas vezes esmurrou a porta dos danados. Mas ele tem pressão alta, pode enfartar, algo assim. E pensou como seria agradável se tirassem um dia para dançar a mazurca. Esplêndido! Clap, clap, clap fariam as palmas dos observadores. Depois trocariam de esposas. Hidromel para todos. Ébrios. Orgia. Um bom fim de briga. Pluft, pluft, pluft fariam os escrotais. Santa Mãe, diriam as mulheres. Jesus amado, responderiam os homens. Nesse prédio só faltava isso. Mas ocasião semelhante já houve, sim, há uns anos. Esperto aquele moço, o Claudecir.

Em maio morria Claudecir. Um bondoso rapaz, de corpo forte, cheio de sonhos, belo, inteligente e, o mais importante, rico. Não que o dinheiro seja a coisa mais importante do mundo, mas, em certos aspectos (entenda-se: o romântico), as notas verdes e o tilintar do dourado são capazes de fazer brilhar os olhos de qualquer dama decente. E assim a vida seguiu para Claudecir. Torrou fortunas com desejos materiais e bebeu muito para satisfazer os carnais. Meteu-se a filantropo e, desta maneira, todos o amavam. Para os amigos, caviar e champanha; às conhecidas, jóias e camas. Aproveitou muito a existência.

A causa de sua morte é um tanto controversa. Alguns diziam ser o golpe do ano antecessor; outros juravam de pés juntos uma doença cardíaca; havia também os que lamentavam o velho problema de Claudecir: a maldita unha encravada. Os casos de unhas encravadas são seriíssimos! Não há câncer ou febre que mate mais do que as unhas. São o Mal do Século. Diversas vezes viu-se nos noticiários manchetes sobre os “causos de mortes misteriosas que tiveram suas origens nos pés”. Tive dois tios e um avô que morreram dessa enfermidade. Minha boa vizinha, por exemplo, também conheceu uma pessoa que faleceu assim. Há cerca de um ano, encontrei-a na garagem do edifício (os olhos inchados denunciavam um choro recente) andando pra lá e pra cá, sem rumo. Perguntei-lhe o que se passava. A vizinha respondeu-me que o ex-zelador do meu prédio batera as botas naquele dia. Fiquei pasmo. Qual pessoa no mundo se importaria com um zelador? Neste momento, lembrei-me das vezes que presenciei as idas e vindas do sujeito ao apartamento dela. Realmente o senhor deveria ser bem prestativo, e em todas as qualificações possíveis, pois, não que eu seja curioso, mas, certos dias, eu ouvia a mulher exclamar: “Meus Deus! Como você é bom!”; decerto o zelador deveria ser excelente em consertar coisas com o martelo porque minha vizinha repetia continuamente: “Mais forte! Mais forte!”... e lá se iam os barulhos da madeira batendo a parede. Retornando à garagem; quando interroguei sobre a causa do óbito, virou-me nervosa e disse: “De unha encravada!”. Bingo! Mais um coitado afetado por esta horrível doença. O difícil foi o meu vizinho entender o motivo do pranto da esposa. Talvez ele também tivesse o problema da unha, quem sabe?

Verdade seja dita: Claudecir morreu de desgosto. O médico da família já havia o proibido de beber substâncias alcoólicas de quaisquer gêneros. Até aquele famigerado abridor de apetite lhe foi negado! Que absurdo misturar álcool em sua fórmula! Mas que seja, se ao menos um vinhozinho fosse permitido às vezes... Desgraça, desgraça, não há mal maior para o homem do que a abstinência dos prazeres do copo. A hipertensão afetou o bom homem.

O Claudecir também carregava uma arritmia desde a infância, e, nos momentos finais de sua curta existência, o quadro médico dela havia se intensificado. Por fim, sua prima o abandonara seis meses antes do desfecho. O incestuoso rapaz ficou desgostoso da vida (quem não ficaria?) e decidiu dar um basta nos remédios que o mantinham respirando. Primeiro faltou à consulta agendada com um mês de antecedência e, logo após, jogou os comprimidos pelo ralo. Sabia, porém, que este gesto o afundaria. O homem não acreditava haver sobrevivência num mundo sem bebidas nem mulheres. Creio que não comentei nada ainda sobre um dos fatores que levaram ao bem-querer de Claudecir pela população local: seus versinhos no jornal do bairro. Sim, era um homem de grande sensibilidade que a amargura do tempo abafou. Ele, um poeta, que tinha por ofício sentir mais do que os outros, deixou de pensar, de olhar, de ouvir e de sonhar. Suas palavras, que antes faziam sorrir, foram armazenando um caráter tétrico. As pessoas pararam de admirar seus versos. A bílis do escritor foi, aos poucos, transformando-se em angústia e desprezo. Daí para o desgosto é um pequeno passo.

A morte de Claudecir em maio foi acompanhada apenas pela mãe, duas irmãs, um tio, a avó materna, um cachorro vagabundo que morava no cemitério e o coveiro. Parece um pouco obvio dizer “e o coveiro”, mas, juro-lhe, não o é. O coveiro acompanhou o velório e foi regente da ladainha! Chorou mais do que os parentes e, só não fez mais, porque o horário do enterro estava marcado para às 11 horas. O pobre coitado ganhou sete palmos e sete palmas em sua homenagem. Nada mais poderia ser feito. Algo que me chamou a atenção foi ver sua amada prima entrando no casarão do falecido, três dias depois das exéquias, para reclamar sua parte na herança. Mundo justo...

Ah, o velho lugar mofado com gente velha. Universidade. Hora de saltar. Eis-me aqui."

10 de nov. de 2008

Curta

"A grande queda desdeo altomuro arrastou em curtolance a pftjqueda de Finnegan, varão outrora mais q'estável, que a vaziamontesta lá dele prumptamente desvestiga quem lhe diga no Ocidente o acidente da perda dos dedos dos pés: e seu parcoespaçoepouso é na porta do parque, lugar de arranjos de oranges mofados sobre o verde desde que Diadublim um diamou Livividinha.

Que choques cá de querências contra carência, ostragodos versus piscigodos! Brékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu Ualu Ualu! Quaouauh! Onde bandos de botocudos inda avançam para arrasamassacrar linguarudos e verduns catapultarremessam contra kanibalísticos para fora da irlandalvosboycia de Montecaveira".*

* Trecho de "Finnegans Wake" ** de James Joyce.

** Minha próxima aquisição doentia, se Odin quiser.

Curto

Fosse a bebida, ou não, esbravejou e bateu o punho sobre a mesa.

O copo tremeu e o vinho resmungou.

"Quê? Fala mais alto!"

Xuá blumblum plóing...

E permaneceram ali, olhando-se.

Eis que passa uma moça ali. Decotuda.

Rapidamente pega o copo e arremessa o conteúdo nela.

"Filho da puta!"

E antes que o tabefe venha, pula-lhe sobre os peitos.

"Deixa que eu seco, moça!"

E a mão logo estalou. No ritmo dos terreiros daqui de perto.

Akira Kurosawa

Biografia de um dos mais brilhantes diretores que esse mundo já viu.
Apaixonante ver suas obras!

Clique aqui para acessar.

5 de nov. de 2008

Prata - por Alex Martire

Certa vez, uma pequena criança, uma menininha, tomou-me a mão. Espantado por não estar acostumado ao contato humano, olhei para baixo. Ela me olhava emburrada. “Conta uma história”. História? Eu? Por quê? “Minha mãe disse que é contador de história”. Talvez eu seja... O que você quer saber? – e olhei para a mãe que, junto com os demais parentes, conversava e ria a bom rir: ela retribuiu o olhar. “Conte a ela”. Tudo bem. Sentei-me à mesa, a menina ao meu lado, apoiada num banquinho para ficar mais alta. Todos pararam para ouvir.
Não tenho nada muito feliz para contar. “Não tem problema”. E aquela carinha me fitava sem piscar. Cocei a cabeça, pensei. Reparei em minhas mãos. Pensei. Bem... era uma vez, havia um garoto. “Bonito?” Não. E ele era um poderoso mago. Ele tinha o poder de enxergar o coração das pessoas, sabe? Qualquer pessoa no mundo; bastava passar a sua frente e logo era detectada pelo mago. Ele – dizia-se – era alguém bondoso, carinhoso. Vivia perto de um local muito quente. “Um vulcão?” Isso, isso mesmo, um vulcão. Enorme. E lá eram fabricados objetos mágicos. Tinha de tudo. Varinhas, capas, caldeirões... e um monte de figuras em metal. Mas ele não era dono sozinho da loja: uma garota ficava por lá, era uma sócia dele. “Bonita?” (Então apontei para o espelho da sala) Vê aquela mocinha ali ao meu lado? “Sim” Era tão linda como ela, mas não tanto. “Obrigada!” Então... os dois trabalhavam na pequena loja, e a garota era uma das melhores pessoas do mundo inteiro, sabe por que? “Por quê?” Porque ela tinha um coração inteirinho de prata. Brilhante. Lindo. O mago sabia muito bem que corações de prata são muito difíceis de se encontrar. São raros. E aquela moça vivia a sorrir. E a cada sorriso, o seu coração pulsava, cegando-o momentaneamente. “Que linda!” Mas, num belo dia, o mago sentiu-se triste. Sentou-se na floresta e começou a chorar. “Meu Deus!” Ele sabia que aquela garota não ficaria ali para sempre, que ela tinha de seguir com sua vida. Ela era muito inteligente, muito esforçada para ser, sempre, alguém que trabalha numa lojinha de magia. E esse dia chegou... ela havia dito que, apesar da grande amizade entre eles, tinha de partir. Ela seguiria até os confins da montanha da Felicidade: um lugar muito longe, onde só os bravos chegam – e ela era extremamente capaz de ali chegar. “E o mago?!” Ele permaneceu triste, por muitos dias. De uma hora para outra, a raiva preencheu sua cabeça. Ele não queria que a garota partisse para longe. Acabou fazendo aquilo que jamais devemos fazer: discutiu, brigou com a menina. Ela chorou. Ele também. Ela disse: Se não posso ir à Felicidade, quebro aqui nosso voto de Amizade. E num clarão muito forte, seu corpo sumiu. Seu coração ficou flutuando no ar durante algum tempo, enquanto o mago olhava desesperado para o vazio. Logo o coração caiu e se quebrou. Milhares de pedaços esparramaram-se no chão. Chorando muito, o mago recolheu cada pedacinho de prata e juntou tudo...
“E? Acabou?! O que aconteceu?!”
Olhei para a minha mão.
Então... ele derreteu os pedaços de prata no vulcão e fez um anel. Um anel para nunca se esquecer de sua dor. Para sempre lembrar que jamais deve estragar a amizade.
“E o mago, ainda existe?”
Sorri tristemente.
Sim, eu disse. E lhe apontei o anel que carrego comigo.
A menina ficou com a boca aberta, pasma. “Então você é o mago!”
Balancei a cabeça, concordando.
“Não quero que o anel lhe deixe triste...” Ela levantou, passou os delicados braços ao redor do meu pescoço e me beijou a bochecha. “É pra você ficar feliz! Eu também enxergo corações, minha mãe diz”.
Sério? E o que vê?
“O seu é de ouro...”
Senti os lábios tremerem e logo me desvencilhei da menina. Saí rápido da sala, enquanto ouvia as pessoas da sala cochicharem: “Por que ele é tão infeliz?”

4 de nov. de 2008

Paul Stanley is God

Todos que me conhecem sabem que adoro o KISS, desde moleque. E Paul Stanley é um ídolo pra mim, é um vocalista perfeito. A terra há de comer esses olhos que viram Paul Stanley e o KISS em 99, no Autódromo. Foi difícil segurar uma lágrima teimosa naquele dia. Pqp! Stanley é demais e ainda por cima me lança esse cd ao vivo donde tirei a música que posto abaixo, junto com a letra.


E vão para o inferno se não baterem os pés no chão ao ouvirem essa música!



Bulletproof


Some people say love comes once in a lifetime
Some people say it's behind every door
I saw your eyes and I knew for the first time
No more playing my emotions
No more aiming at my heart
You make me bulletproof, that's what you do
I feel invincible when lying next to you
You've got the arrows bouncing off my skin
I lost a love before, this time I'm gonna win
You make me ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah)
Ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah)
Hidin' my heart was my only protection
Keepin' my distance to keep me alive
You took it all in another direction
No more firing at my feelings
No more shots to take me down
You make me bulletproof, that's what you do
I feel invincible when lying next to you
You've got the arrows bouncing off my skin
I lost a love before, this time I'm gonna win
You make me ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah) yeah...
Ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah)
No more playing my emotions
No more aiming at my heart
You make me bulletproof
Ooh, you make me oh-oh oh-oh, yeah
Aah, oh-oh oh-oh yeah
Oh-oh oh-oh yeah
Aah-ah, oh-oh oh-oh, yeah
You make me bulletproof that's what you do
I feel invincible when lying next to you
You've got the arrows bouncing off my skin
I lost a love before, this time I'm gonna win
You make me ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah) yeah
Ooh-yeah (ooh-yeah, ooh-yeah)
You make me bulletproof (ooh-yeah, ooh-yeah, ooh-yeah)
Ooh-yeah (ooh-yeah)

2 de nov. de 2008

Caveira Safada - por Alex Martire

Era aquela maldita caveira novamente.
- Ei, puto, chegue cá!
E ela veio, meio cambaleante, com seu ritmado compasso de fêmur. Caveira mexicana. Sorria com os amarelados-pontos-temerosos-de-dentistas. Trazia um charuto entre os finos dedos da ossatura direita.
- Mas o que faz aqui novamente, peste?
- Sabe como é, caveirando... Invejando os que têm carne.
- Porra, esse povo deve tomar um susto, hein!
- Nem me fale. Não sei porque tanto medo. Uma caveirinha tão simpática como eu.
Coçou as costelas.
- O que é isso aí?
- Isso o que?
- Preso aí, velho.
- Presente para usted.
E retirou uma grande garrafa de rum.
- Conseguiu onde?
- Dei sorte. Geralmente nessa época, só encontro aguardente sem graça. Isso eu roubei de macumba de rico.
Ele cuspiu.
- Cacete, macumba?!
E tudo ao redor perdeu o chão. Logo estava sobrevoando a cidade com a caveira ao seu lado. Ela de cachecol e óculos escuros. Ele, calcinha e sutiã.
- Irra, que gostoso isso, caveirona!
- Eu sei, dá um friozinho na barriga. Olha pra baixo.
Mirou.
- Que que tem?
- Vê aquele homem?
- Sei.
- Não reconhece?!
- Deixe-me ver melhor... Sim! Porra, aquele filho da puta tá fazendo o que?
- Parece-me claro...
- Beijando um vagabundo! Safado! Disse que ia ao cemitério hoje.
- Ele parece querer enterrar outra coisa.
- Mas só pode se for em mim!
- Entendo...
- Vamos embora?
- Ainda não.
- Quer que eu sofra mais?! Ele está me traindo!
- Em vida, muitas mulheres me traíram também. A dor, eu conheço bem.
- E pra que eu tinha de ver isso?
- Sei lá. Sou apenas uma caveira que voa... não acha isso estranho?
E voltaram ao balcão do bar.
- Tô voltando pra porta do cemitério, caveirona. Hoje mato aquele desgraçado, filho duma égua!
Tomou a garrafa de rum em mãos e rumou.
Partiu-a na calçada e fincou nas costas do seu amor, deixando-o morto ali, enquanto o outro corria.
Voltou para o bar.
Caveira mexicana estava lá, com outra caveira ao seu lado.
- Porra, esse chapéu eu conheço! É você, maldito? – perguntou o rapaz.
- Sim, é ele, meu bom amigo. Obrigado por trazê-lo a mim. Há tempos estava desejando um esfrega-osso com ele.
As duas caveiras deram um longo beijo de caninos, molares e tártaros.
O rapaz chorou.
A manchete no jornal ao fim do dia: “Homem é preso após matar namorado. Um verdadeiro crime passivonal”.

Pieces - por Alex Martire

31 de out. de 2008

Nota:

É muito difícil viver com o desprezo, a indiferença.

É a raiva em seu olhar.

Criei uma dor a mim mesmo...

27 de out. de 2008

Trailer - Livro

Apesar de isso ser bem egocêntrico, achei a idéia bacana.
Fiz um trailer teaser para o texto novo que estou escrevendo.

26 de out. de 2008

Kassabão

Pois é... a cria do PSDB venceu nessa desgostosa cidade de São Paulo.
Temos de concordar com o velho Tim: Brasil realmente é o único lugar em que pobre é de direita. E São Paulo é a quintessência dessa palhaçada.

Parabéns aos idiotas.