Estou sem pressa para escrever. Pela primeira vez na vida, terei um ritmo lento imposto a mim mesmo. Meses ou anos, tanto faz. Uma semana? Quem dera, pode ser.
Vai ser doloroso. Mas é o que vocês querem, não é? Escrever coisas boas não tem efeito. Só elogiam as desgraças pelas quais passei e joguei no papel. É hora de jogar tudo no ventilador, e que fique aquele que for capaz...
Início:
Uma ampla cidade. Que obedecia aos caprichos da natureza. Lá as noites eram noites e os dias, claros. No momento, a penumbra invadia as estreitas ruas de um bairro, cobrindo as infâmias de seus cidadãos. Dinamicidade. Todos iam e vinham. Livres. Alguns despreocupados. Outros raivosos. E ainda havia aqueles que não expressavam nada. Apenas caminhavam. Ouvia-se em primeiro plano a respiração ofegante. Sua garganta seca, mas capaz de expelir os vapores no inverno, no frio. Apressados passos. A cabeça doía. Olhos semicerrados. Vermelhos. Úmidos, mas não por uso de algo. Não, a substância ilícita que corria em seu sangue era a própria vida.
Olhava pela janela. Quadriculada. Barras de metal o separavam da liberdade. Liberdade... Ela viria. Depois de longos anos, ela chegaria. Amanhã bateriam em seu ombro. “Olha, chamam você ali”. Viraria o corpo e encontraria aquele rapaz que sempre zelou para que nunca fugisse. Teria ressentimentos? Aquele dia... um estilete em seu pescoço. Não foi por maldade. Ao menos, não pensara assim. Necessidade. Fui com os outros. É o jeito: ou se vai ou morre. Sorte que não aconteceu algo pior. Mas hoje descanso. Começa a garoar. Cheiro de chuva. Grades, este será o seu último momento para me dizer se se arrependem. Não? Imaginei. Tantas pessoas lá fora. Logo estarei com elas. Um preço alto eu paguei. É hora de pagar à sociedade.
Ele sairia da penitenciária pela manhã.
Terra molhada. Sujeira molhada. Chuva. Esconderiam a vermelhidão das vistas. Lugar movimentado aqui. Pessoas com medo de que eles fujam. Sim, como há alguns anos. Muitos se foram. O povo ainda teme o que está escondido ali. Sorriem? A bestialidade humana sorri, é capaz de riscar o rosto com um arco simplesmente porque está de mãos dadas. Passam rápido, felizes. Cabelos molhados. Motel ou chuva? Merda. Apertava a mão, fechando-a em si mesma, até o sangue parar de correr. Formigava. Abria. Olhava. Secava uma lágrima. Parado. Ele; parado. Quase na esquina do quarteirão. Nunca se soube o que esperava. Não importava. Talvez nada. Apenas observava quem ia. Quem vinha. Quem levava sua alma para o desterro. Ao longe, luzes fracas nas celas do presídio. Danem-se.
“Maldita noite para dormir. Amanhã, liberdade”.
“Maldita noite para sorrir. Quanta maldade”.
A mãe afagava os cabelos da jovem.
- Não chore.
- O que eu sou? – e soluçava.
- Uma pessoa maravilhosa!
- Mentira! Ninguém me deseja!
- Sentimentos carnais, filha? Nessa idade? – sorriu.
- Não diga besteira. Sinto falta de alguém.
- De quem?
- Não sei. Qualquer um. Carinho.
- O de mãe nunca é igual, não é mesmo?
- Desculpe...
E balançava o corpo, dançando horizontalmente. O nó na garganta. Nó górdio desgraçado. Sentia que seria puxada pelo pescoço, que sua vida minguaria ali, naquele instante, tal qual a Isadora.
Pernas ágeis chutavam o ar.
A mãe começou a prantear.
“Liberdade”.
“Sorrisos”.
“Quero amar”.
Ele sairia da penitenciária pela manhã.
- Não chore.
- O que eu sou? – e soluçava.
- Uma pessoa maravilhosa!
- Mentira! Ninguém me deseja!
- Sentimentos carnais, filha? Nessa idade? – sorriu.
- Não diga besteira. Sinto falta de alguém.
- De quem?
- Não sei. Qualquer um. Carinho.
- O de mãe nunca é igual, não é mesmo?
- Desculpe...
E balançava o corpo, dançando horizontalmente. O nó na garganta. Nó górdio desgraçado. Sentia que seria puxada pelo pescoço, que sua vida minguaria ali, naquele instante, tal qual a Isadora.
Pernas ágeis chutavam o ar.
A mãe começou a prantear.

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