14 de nov. de 2008

"Berserker" (excerto) - por Alex Martire

Trecho do meu livro que sairá no começo do ano que vem.

"Mas isso não vem ao caso. Somente lembrei-me do assunto graças aos meus vizinhos que habitam imediatamente acima de mim. Um moleque insolente casado com uma bêbada. O bebê teve o azar de nascer num lar de berros e barulhos. Como eles atormentam! Chegam de madrugada e resolvem arrastar móveis e derrubar coisas pelo apartamento todo. Além, é claro, de possuírem um cão do inferno que ladra sem parar e corre por todo o ambiente. Trisc, trisc, fazem suas unhas arranhando o piso sobre mim. Tiram o nosso sono. A briga até que está boa: reclamações, multas. Mas continuam a atormentar. O vizinho ao lado deles já perdeu a paciência; algumas vezes esmurrou a porta dos danados. Mas ele tem pressão alta, pode enfartar, algo assim. E pensou como seria agradável se tirassem um dia para dançar a mazurca. Esplêndido! Clap, clap, clap fariam as palmas dos observadores. Depois trocariam de esposas. Hidromel para todos. Ébrios. Orgia. Um bom fim de briga. Pluft, pluft, pluft fariam os escrotais. Santa Mãe, diriam as mulheres. Jesus amado, responderiam os homens. Nesse prédio só faltava isso. Mas ocasião semelhante já houve, sim, há uns anos. Esperto aquele moço, o Claudecir.

Em maio morria Claudecir. Um bondoso rapaz, de corpo forte, cheio de sonhos, belo, inteligente e, o mais importante, rico. Não que o dinheiro seja a coisa mais importante do mundo, mas, em certos aspectos (entenda-se: o romântico), as notas verdes e o tilintar do dourado são capazes de fazer brilhar os olhos de qualquer dama decente. E assim a vida seguiu para Claudecir. Torrou fortunas com desejos materiais e bebeu muito para satisfazer os carnais. Meteu-se a filantropo e, desta maneira, todos o amavam. Para os amigos, caviar e champanha; às conhecidas, jóias e camas. Aproveitou muito a existência.

A causa de sua morte é um tanto controversa. Alguns diziam ser o golpe do ano antecessor; outros juravam de pés juntos uma doença cardíaca; havia também os que lamentavam o velho problema de Claudecir: a maldita unha encravada. Os casos de unhas encravadas são seriíssimos! Não há câncer ou febre que mate mais do que as unhas. São o Mal do Século. Diversas vezes viu-se nos noticiários manchetes sobre os “causos de mortes misteriosas que tiveram suas origens nos pés”. Tive dois tios e um avô que morreram dessa enfermidade. Minha boa vizinha, por exemplo, também conheceu uma pessoa que faleceu assim. Há cerca de um ano, encontrei-a na garagem do edifício (os olhos inchados denunciavam um choro recente) andando pra lá e pra cá, sem rumo. Perguntei-lhe o que se passava. A vizinha respondeu-me que o ex-zelador do meu prédio batera as botas naquele dia. Fiquei pasmo. Qual pessoa no mundo se importaria com um zelador? Neste momento, lembrei-me das vezes que presenciei as idas e vindas do sujeito ao apartamento dela. Realmente o senhor deveria ser bem prestativo, e em todas as qualificações possíveis, pois, não que eu seja curioso, mas, certos dias, eu ouvia a mulher exclamar: “Meus Deus! Como você é bom!”; decerto o zelador deveria ser excelente em consertar coisas com o martelo porque minha vizinha repetia continuamente: “Mais forte! Mais forte!”... e lá se iam os barulhos da madeira batendo a parede. Retornando à garagem; quando interroguei sobre a causa do óbito, virou-me nervosa e disse: “De unha encravada!”. Bingo! Mais um coitado afetado por esta horrível doença. O difícil foi o meu vizinho entender o motivo do pranto da esposa. Talvez ele também tivesse o problema da unha, quem sabe?

Verdade seja dita: Claudecir morreu de desgosto. O médico da família já havia o proibido de beber substâncias alcoólicas de quaisquer gêneros. Até aquele famigerado abridor de apetite lhe foi negado! Que absurdo misturar álcool em sua fórmula! Mas que seja, se ao menos um vinhozinho fosse permitido às vezes... Desgraça, desgraça, não há mal maior para o homem do que a abstinência dos prazeres do copo. A hipertensão afetou o bom homem.

O Claudecir também carregava uma arritmia desde a infância, e, nos momentos finais de sua curta existência, o quadro médico dela havia se intensificado. Por fim, sua prima o abandonara seis meses antes do desfecho. O incestuoso rapaz ficou desgostoso da vida (quem não ficaria?) e decidiu dar um basta nos remédios que o mantinham respirando. Primeiro faltou à consulta agendada com um mês de antecedência e, logo após, jogou os comprimidos pelo ralo. Sabia, porém, que este gesto o afundaria. O homem não acreditava haver sobrevivência num mundo sem bebidas nem mulheres. Creio que não comentei nada ainda sobre um dos fatores que levaram ao bem-querer de Claudecir pela população local: seus versinhos no jornal do bairro. Sim, era um homem de grande sensibilidade que a amargura do tempo abafou. Ele, um poeta, que tinha por ofício sentir mais do que os outros, deixou de pensar, de olhar, de ouvir e de sonhar. Suas palavras, que antes faziam sorrir, foram armazenando um caráter tétrico. As pessoas pararam de admirar seus versos. A bílis do escritor foi, aos poucos, transformando-se em angústia e desprezo. Daí para o desgosto é um pequeno passo.

A morte de Claudecir em maio foi acompanhada apenas pela mãe, duas irmãs, um tio, a avó materna, um cachorro vagabundo que morava no cemitério e o coveiro. Parece um pouco obvio dizer “e o coveiro”, mas, juro-lhe, não o é. O coveiro acompanhou o velório e foi regente da ladainha! Chorou mais do que os parentes e, só não fez mais, porque o horário do enterro estava marcado para às 11 horas. O pobre coitado ganhou sete palmos e sete palmas em sua homenagem. Nada mais poderia ser feito. Algo que me chamou a atenção foi ver sua amada prima entrando no casarão do falecido, três dias depois das exéquias, para reclamar sua parte na herança. Mundo justo...

Ah, o velho lugar mofado com gente velha. Universidade. Hora de saltar. Eis-me aqui."

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