Sim, ele é feio pra caramba!Porém, o que esse sujeito fez não é tarefa para qualquer um. Convenhamos, redigir 900 páginas não é algo fácil. Dificilmente uma obra desse tamanho pode ser ruim, basta citar Guerra e Paz, O Senhor dos Anéis, Ulisses, Musashi... e a lista segue.
Littell e sua "As Benevolentes" corrobora a regra e desgraça os olhos do leitor. Ainda quero entender o porquê de tantos escritores apelarem à Grécia as influências para redigirem, mas, deixando isso pra lá, o título cai perfeitamente bem à obra. Ésquilo e sua tragédia inspiraram Littell, e, tal como o heleno, esse estadunidense nascido em 1967 fala de crimes, sangue e dramas psicológicos. E nisso Littell é estupidamente perfeito! A trama envolve as memórias de um Obersturmbannführer (tenente-coronel) chamado Max Aue que, dentre as diversas funções realizadas, esteve incluída a ida ao front de Stalingrado e o trato direto com Auschwitz. E Aue é cru. Complexado. E tem de esconder sua homossexualidade dos demais nazistas. O livro tem por balizamento todo o decorrer da Segunda Guerra até a derrota em 1945.
Um livro excelente, sem brincadeira, é ótimo! Porém, é de uma degustação dificílima... Degustação talvez nem seja o termo correto, parece mais que o leitor é obrigado a engolir todas as palavras, sentindo apenas o gosto amargo presente. Choca? Sim, diversas vezes. Mas as coisas não devem ser muito diferentes: basta ser humano pra perceber que as coisas podem desabar de uma hora para outra. Escatologia e violência escorrem do livro, mas sem fazer disso o centro.
Entre os inúmeros "parabéns" que se deve dar a Littell, certamente, o esmero histórico é um deles. Quase cinco anos entre pesquisas e redação (publicado em 2006) fizeram com que o autor passeie por toda parte administrativa, burocrática da Alemanha nazista. Sorte nossa! As coisas, que antes pareciam nebulosas para mim, agora ganham um aspecto mais inteligível. E, para completar, a edição brasileira (ed. Objetiva/Alfaguara) traz um glossário com os termos alemães que o autor em momento algum explica durante a narrativa.
Um livro pesadíssimo, mas gratificante, certamente. Uma ficção repleta de verossimilhança.
Despeço-me com um trecho:
"Senti de repente todo o peso do passado, do sofrimento da vida e da memória inalterável e fiquei sozinho com o hipopótamo agonizante, alguns avestruzes e os cadáveres, sozinho com o tempo e a tristeza e a dor da lembrança, a crueldade da minha existência e a minha morte ainda por vir. As Benevolentes haviam encontrado meu rastro".

E agora estou livre para me enlouquecer com o meu Finnegans Wake...

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