Musashi voltou-se para contemplar o tumulto e sorriu sob o sombreiro. Parado havia já algum tempo na frente da modesta oficina de cerâmica, anexa ao casebre em questão, estivera observando longamente os movimentos do torno e da espátula, absorto como uma criança que contempla um brinquedo.
Logo seu olhar foi outra vez atraído para o interior da oficina. Mas os dois artesãos que ali trabalhavam em total concentração nem sequer haviam erguido as cabeças, seus espíritos parecendo presos ao barro que moldavam.
Contemplando o trabalho dos homens, em pé no meio da rua, Musashi sentiu-se, também ele, tentado a moldar aquela argila. Sempre tivera gosto por esse tipo de trabalho, desde a infância. Achou-se capaz de moldar algo simples, como uma tigela.
Contudo, ao observar com atenção o trabalho de um dos artífices — um homem de quase 60 anos que, naquele instante, com a espátula e a ponta dos dedos moldava uma tigela — repreendeu-se pela presunção:
“Quanta habilidade! É preciso muita dedicação para se chegar a este ponto!”, reconheceu.
Ultimamente, o respeito que lhe inspirava qualquer obra superior, fruto do trabalho e da arte alheia, despertava com freqüência reflexões dessa natureza no espírito de Musashi. Compreendeu então com clareza que não era capaz de fazer nada sequer semelhante.
Observando melhor, notou que os dois homens haviam exposto sobre uma prancha de madeira, a um canto da oficina, diversos tipos de porcelana como pratos, vasilhames, cabaças e jarras, e neles haviam afixado etiquetas de preços, aliás módicos, com o intuito de vendê-los aos romeiros que transitavam por aquela rua. A consciência de que até mesmo a fabricação de porcelanas baratas como essas exigia tanta técnica e concentração, fez com que Musashi percebesse quão longe ainda estava de atingir sua meta na longa caminhada que iniciara rumo à própria formação guerreira.
A bem da verdade, Musashi havia andado bastante orgulhoso de si, pois nestes últimos 20 dias viera desafiando algumas academias mais famosas da cidade — entre elas, a de Yoshioka Kenpo — e, como resultado, havia percebido que sua habilidade como espadachim, contrariando a própria expectativa, estava longe de ser desprezível.
Viera a Kyoto — cidade que abrigava o castelo imperial, a antiga sede de inúmeros xogunatos — certo de que ali encontraria os melhores guerreiros e de que para ali convergiriam os generais mais hábeis, os soldados mais valentes do país; nenhuma academia por ele visitada, porém, fora capaz de lhe inspirar respeito, de levá-lo a curvar-se com deferência ao se retirar.
Pelo contrário: cada vitória sobre seus oponentes provocava em Musashi indizível tristeza, levando-o a afastar-se dessas academias desiludido.
— Não entendo: ou sou muito mais hábil do que imaginava, ou eles muito ineptos.
Se os guerreiros com quem se batera nas academias visitadas até aquele dia eram considerados os melhores da atualidade, quais seriam então os atuais valores da sociedade? Musashi não conseguia discernir claramente.
Mas nesse instante os ceramistas lhe haviam mostrado que não poderia se dar ao luxo da presunção: até mesmo um velho artesão, de cujas mãos saíam rústicas peças de porcelana valendo apenas alguns trocados — descobrira Musashi depois de atenta observação — possuía essa aterradora capacidade de concentração, base de toda a sua técnica e arte. E o que ganhava o velho homem em troca dessa habilidade? Mal tinha o que comer, e vivia num miserável barracão. A vida não podia ser tão fácil quanto chegara a pensar, com certeza.
Mentalmente, Musashi dirigiu uma respeitosa reverência ao ancião sujo de barro, absorto em seu trabalho, e afastou-se em silêncio. Ergueu a cabeça e fixou o olhar na íngreme ladeira que conduzia ao templo Kiyomizudera.
Logo seu olhar foi outra vez atraído para o interior da oficina. Mas os dois artesãos que ali trabalhavam em total concentração nem sequer haviam erguido as cabeças, seus espíritos parecendo presos ao barro que moldavam.
Contemplando o trabalho dos homens, em pé no meio da rua, Musashi sentiu-se, também ele, tentado a moldar aquela argila. Sempre tivera gosto por esse tipo de trabalho, desde a infância. Achou-se capaz de moldar algo simples, como uma tigela.
Contudo, ao observar com atenção o trabalho de um dos artífices — um homem de quase 60 anos que, naquele instante, com a espátula e a ponta dos dedos moldava uma tigela — repreendeu-se pela presunção:
“Quanta habilidade! É preciso muita dedicação para se chegar a este ponto!”, reconheceu.
Ultimamente, o respeito que lhe inspirava qualquer obra superior, fruto do trabalho e da arte alheia, despertava com freqüência reflexões dessa natureza no espírito de Musashi. Compreendeu então com clareza que não era capaz de fazer nada sequer semelhante.
Observando melhor, notou que os dois homens haviam exposto sobre uma prancha de madeira, a um canto da oficina, diversos tipos de porcelana como pratos, vasilhames, cabaças e jarras, e neles haviam afixado etiquetas de preços, aliás módicos, com o intuito de vendê-los aos romeiros que transitavam por aquela rua. A consciência de que até mesmo a fabricação de porcelanas baratas como essas exigia tanta técnica e concentração, fez com que Musashi percebesse quão longe ainda estava de atingir sua meta na longa caminhada que iniciara rumo à própria formação guerreira.
A bem da verdade, Musashi havia andado bastante orgulhoso de si, pois nestes últimos 20 dias viera desafiando algumas academias mais famosas da cidade — entre elas, a de Yoshioka Kenpo — e, como resultado, havia percebido que sua habilidade como espadachim, contrariando a própria expectativa, estava longe de ser desprezível.
Viera a Kyoto — cidade que abrigava o castelo imperial, a antiga sede de inúmeros xogunatos — certo de que ali encontraria os melhores guerreiros e de que para ali convergiriam os generais mais hábeis, os soldados mais valentes do país; nenhuma academia por ele visitada, porém, fora capaz de lhe inspirar respeito, de levá-lo a curvar-se com deferência ao se retirar.
Pelo contrário: cada vitória sobre seus oponentes provocava em Musashi indizível tristeza, levando-o a afastar-se dessas academias desiludido.
— Não entendo: ou sou muito mais hábil do que imaginava, ou eles muito ineptos.
Se os guerreiros com quem se batera nas academias visitadas até aquele dia eram considerados os melhores da atualidade, quais seriam então os atuais valores da sociedade? Musashi não conseguia discernir claramente.
Mas nesse instante os ceramistas lhe haviam mostrado que não poderia se dar ao luxo da presunção: até mesmo um velho artesão, de cujas mãos saíam rústicas peças de porcelana valendo apenas alguns trocados — descobrira Musashi depois de atenta observação — possuía essa aterradora capacidade de concentração, base de toda a sua técnica e arte. E o que ganhava o velho homem em troca dessa habilidade? Mal tinha o que comer, e vivia num miserável barracão. A vida não podia ser tão fácil quanto chegara a pensar, com certeza.
Mentalmente, Musashi dirigiu uma respeitosa reverência ao ancião sujo de barro, absorto em seu trabalho, e afastou-se em silêncio. Ergueu a cabeça e fixou o olhar na íngreme ladeira que conduzia ao templo Kiyomizudera.



