O homem caminhava no velho estradão de terra batida. O pó alaranjado que subia quando um ou outro zéfiro passava levava às narinas o rapé da natureza, sufocando seu jovem ser. A camisa liberava o morno odor de seu suor, enquanto o lenço do bolso traseiro servia para enxugar a testa e o pescoço avermelhado pelo sol. Carregava pendurado nas costas o violão lascado nas laterais, com as cordas de aço oxidadas pelas chuvas e pela gordura dos dedos tocadores. Na boca, o fio de capim arrancado da beira da estrada.
O caminho tendia ao infinito. Ninguém ia. Só a brisa vinha. E lá pelas tantas pôde avistar uma espécie de aglomerado de árvores choronas à direita da estrada, longe cerca de meio quilômetro. O homem pensou risonho: “Estou cansado e vou me deitar sob aquelas moças”. Saiu da terra batida e imediatamente os zéfiros pararam. “Estranho” – pensou – “só aqui é que não venta?”. A grama da planície era fofa e tirou os surrados calçados para libertar as bolhas dos pés na umidade verde. Chegando às sombras, deitou-se encostado no tronco de uma das árvores, deixou o violão ao lado, cruzou as pernas e relaxou com os braços atrás da cabeça.
Alguns minutos se perderam até que a boca seca o despertou do transe. “Que sede dos infernos!”. Seu cantil estava vazio. “Então é hora de partir, buscar água em alguma casa aqui perto”. Levantou-se, pegou as coisas e se dirigia de volta à estrada quando ouviu um ruído vindo das entranhas do bosque. “Que eu não seja homem se isso não for água!” – sorriu entre o suor gelado. Bastaram uns 666 segundos de mata fechada para dar de encontro com um lago lindíssimo. De água calma e de uma transparência que nunca vira antes. O calor era tremendo, optando por tomar um banho ali mesmo. Despiu-se e fez um montinho com suas coisas à beira do lago. “Que água boa dos infernos!”. Nadou e bebeu. Quando se sentia revigorado, saiu e, para sua surpresa, o violão não estava mais lá. “Por essas bandas deve haver uns ladrões dos infernos!” – resmungou. Desolado com a separação, recostou-se numa árvore e ali ficou. “Até minha garota me foi tirada. Agora não tenho ninguém nesse mundo”. Cansado pela tristeza, o homem acabou cochilando.
Já era noite alta quando foi acordado com uma doce melodia. “Que inferno, é a minha garota!” – sentou-se rapidamente. Lá do outro lado do lago conseguiu ver um vulto sentado, tocando violão. De chapéu e terno, a figura parecia rir. “Ei, desgraçado, devolva-me minha garota!” – berrou o homem. O vulto parou de tocar e uma voz tenebrosa rasgou o ar: “Garota? Não vejo mulher alguma por aqui. Só estamos eu e esse belo violão. Ò, que bela cintura ele tem, meu caro!”. O homem ficou paralisado de raiva, vendo outro ser tocar a menina de seus olhos. “Devolva-me!”. “Ora, venha buscar, eu lhe dou sua ‘garota’” – e riu novamente. O homem pulou no lago e prontamente se pôs a nadar. Mas foi em vão... algo parecia não lhe deixar dar mais de duas ou três braçadas. Era como se estivesse em um mar de gelatina, esgotando suas forças à toa. “Homem tolo! Não vê que é inútil lutar?”. E deixando o violão no colo, o vulto lhe propôs: “Façamos um trato. No lago em que está há algo mais gostoso do que qualquer outro alimento que já foi feito. Há uma coisa mais macia do que a pele de sua bunda quando era bebê. E, misericórdia, há algo mais perfumado do que os campos de flores que plantam ao Sul! Eu quero que me pesque uma mulher desse lago. Elas pululam por aqui antes da hora do sol nascer. Traga-me a mais bela e lhe devolverei o violão na próxima madrugada. Mas atenção! Quero que a mulher esteja intocada, entendeu? Se me vier com uma maculada, não só perderá seu violão, como morrerá nessas águas! Adeus, meu bom homem”. E uma fumaça se fez presente.
O homem saiu do lago e se beliscou: “Maldição, devo estar louco! Que raio de pesadelo foi esse?”. Ele olhou novamente a beira do lago e não achou o violão. Dar a volta era praticamente impossível: de uma hora para outra a mata parecia ter se fechado, e sons de animais um tanto furiosos vinham de lá. “Inferno! Vou ter de pescar a mulher pro infeliz!”. Mas como ele o faria? O dia começava a nascer e borbulhas saltavam da superfície do lago. Podia jurar de pés juntos que num momento avistou um braço saindo das águas. Procurou por um galho resistente. A linha seria um problema: seus sapatos não possuíam mais cadarços. “Vou ter de improvisar mais” – sorriu ao pegar folhas compridas das árvores choronas e entrelaçá-las. “Só falta a isca!” – preocupou-se. Primeiro, amarrou seu lenço na ponta da linha e arremessou no lago. Em poucos instantes sentiu um fisgão e o lenço foi jogado de volta à beirada. Tentou com a meia: mesma coisa. Camisa: idem. Por fim, tentou com a cueca. Sentia que beliscavam a isca. Pacientou-se e teve fé. Quando fisgou, puxou com dificuldade o peixe para fora da água. “Abençoado seja Deus, que mulherão!” – babou. Uma moça loira, nua, estava diante dele; toda sorrisos. Ele a tocou para ver se era de verdade, arrancando risinhos. Era estranho, mas aquela mulher o atraía demais. Ela tinha lábios delicados e a cintura lembrava a sua garota-violão. Ela jogou os braços ao redor de seu pescoço e o beijou. Ele pensou consigo mesmo: “Bom, se aqui há tantas mulheres mesmo, então eu pesco outra para ele ainda hoje!”. E deitou-se com a loira no mato, macunaimando-se. Em seguida, devolvia o peixe para a água.
Pescou depois uma ruiva. Macunaimou-se.
Uma morena.
Uma negra.
Uma asiática.
A mesma loira de novo.
Por fim, quando já anoitecia e encontrava-se esgotado, pensou que era hora de levar a coisa a sério. Com os fiapos da cueca, fisgou o peixe mais absurdamente lindo do lago. De cabelos escuros e corpo perfeito. De olhos violeta. De boca vermelha. De bochechas beliscadas e coradas. “Mulher dos infernos! Tenho de ser forte e resistir!”. Quando a moça lhe grudou no pescoço, desviou-se, deixando-a desconcertada. “Não me acha bonita?”. “Moça, você é linda de morrer!”. “Pois então: perca-se em mim!”. “Acho melhor não... está esfriando, sabe? Tome, vista minha camisa”.
Horas se passaram e chegava a alta madrugada. “Estou congelando, querido, me abrace”. E ele a aconchegou. Seu perfume era estonteante e, quando menos percebeu, estava se deliciando com seus lábios. Em poucos minutos ele havia feito o que não devia. “Desgraça! Como pude ser tão fraco?! Agora não tenho tempo de pescar mais nada e ele voltará! Estou morto, morto!”. Começou a chorar. A moça, tranquilamente, chegou junto ao seu ouvido e disse: “Eu tenho um plano. Quando ele vier, me entregue. Vamos nos deitar à beira do lago e nos amar. Antes que ele perceba a falta do impedimento natural que eu deveria guardar, você toma uma das cordas de seu violão em mãos e o estrangula! Depois podemos fugir e viver felizes, querido!”. Sem muitas opções, o homem acatou as palavras da mulher.
Ouviu o som de sua garota. Era ele que estava sentado lá do outro lado. “Então, vejo que está com uma moça muito bonita aí. Venha com ela buscar o violão”. Os dois nadaram até lá. “Aqui está, meu caro” – disse apresentando-lhe o instrumento e debruçando-se sobre a mulher. O homem rapidamente buscou as cordas do violão, mas não as achou! “Espero que não se importe, estourei as cordas ao tocar... estavam muito enferrujadas, sabe? Depois você compra outro encordoamento. Agora, vá. Deixe-me aqui com meu peixinho”. O homem ficou pasmo, petrificado. Só despertando quando ouviu o grito do vulto: “O que é isso?! O que você fez, idiota?!” – esbravejou – “Como ousa tomar de mim o que é meu por trato?!”. Num pulo só, o Tinhoso arrancou o violão das mãos do rapaz e o arrebentou em sua cabeça, rachando seu crânio. “Vá, leve-o daqui” – ordenou à mulher-peixe.
E lá no fundo do lago ele foi devorado por centenas de dentes afiados.
23 de jan. de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário