18 de fev. de 2009

Excerto de livro a sair - por Alex Martire

Ainda estava mastigando o café da manhã quando o outro se sentou à mesa. Tomou o pão em mãos e inseriu-lhe a faca, puxando as tripas brancas, moles, saborosas. O pote de margarina estava no fim, restando duas levíssimas passadas. O outro só o olhava, com cara de noite insone. Mastigou. Mudou a massa de lado. Mastigou. Reparou que era observado.
- O que quer?
- Eu... bem, aquela sua amiga, a filha da dona da loja de máscaras...
- Sei. Ela também é sua amiga. Não fale como se não a conhecesse.
- É um assunto delicado, sabe?
- Estão juntos?
- É... olha, eu não quero magoar você, cara. Desde a morte de minha irmã você anda sozinho, tomando aquelas merdas. Pensei seriamente que vocês iriam, sabe, se ajuntar.
- Mas não.
- Pois é. Aí aconteceu entre a gente. Não sei explicar e...
- Não precisa.
E seu olhar fulminou o sorriso tímido do companheiro que nada comia. O homem entendeu o que significava aquilo e, desajeitado, retirou-se. Pegou a mochila sobre o sofá e as chaves ao lado da porta.
- Cara, eu só... quero tentar ser feliz. – e saiu fechando a porta.
Não teve tempo de ouvir a pesada mão sobre a mesa. O punho esbranquiçado pelo sangue que não lhe corria. Também não viu o copo de leite rolar até o chão. Se estivesse presente, talvez pudesse observar a maneira como a mão esquerda daquele homem de sorriso nulo tremeu no ar antes de chegar aos cabelos. Certamente não repararia nos olhos dele, agora sombreados pelos dedos sobre as sobrancelhas. E agora, seu puto? Até isso você deixou escapar. Até ela... Eu sabia que ela... E ela... E lhe veio à mente aquela última tarde. Sob o calor da cidade sem cores. Um amontoado de gente sem valor e ela ali, dizendo ao coração dele: “Bata, bata, bata”. Ele estava desacostumado com as mulheres. Sua dor não fora nunca totalmente apagada ou superada. Mas a via claramente agora que as unhas entravam na palma da mão. Seu cabelo preso, deixando o longo pescoço à mostra. Ombros nus. O vestido leve combinando com as cores das unhas. Seus olhos acastanhados, que pareciam se tornar vitrificados cada vez que o sol recaia sobre sua pele. Era o seu riso... O modo como colocava a mão em frente à boca, estremecendo o corpo, puxando a alegria do fundo da alma, cuspindo-a pelos dentes e o risco aberto dos lábios vermelhos delicados. O que eu perdi? Mais isso... perdi mais uma vez, mais um fracasso. Achava-se desinteressante ao extremo, afinal, ela preferira o outro a ele. Sentiu o rosto queimando. Em instantes, aquele desgraçado estaria com suas mãos sobre ela. E ela iria sorrir. Rindo da minha derrota. E ele sabia que ela encantaria aquele rapaz, ele sabia. Como no dia em que subiu na árvore e lhe mostrou a beleza de, por instantes, saber o que é viver. Naquele dia, borboletas voaram.
Permanecia à mesa, derramando lágrimas de vergonha, quando sentiu uma enorme fisgada no braço, próximo ao pulso. Rapidamente, um leve contorno de alguma coisa se rabiscou. E se aprofundou, aparecendo gotículas de sangue. Quando chegou mais perto para olhar, identificou o contorno de uma pequena borboleta. Aquilo foi doendo, cravando, rasgando. Em questão de segundos, a dor ficou lancinante: de sua pele se destacou a borboleta, que começou a voar, tingindo a cozinha com pequenos pontos vermelhos, que pingavam de suas asas. Sequer pôde tentar entender o acontecido, quando sentiu mais fisgadas. Em todo o seu corpo. Do outro braço saltou mais uma borboleta. Debaixo de sua camiseta branca, reparou manchas de sangue. Mais uma. Mais. E mais. Dezenas de borboletas rasgaram sua carne e voavam, alegremente, fazendo o som de algo gorduroso quando batiam as asas. “Bata, bata, bata”. Sua roupa começou a se mexer sozinha, junto a um ruído infernal. Assustado, tirou a camiseta: centenas de borboletas conseguiram a liberdade, deixando-lhe apenas em músculos vivos. O mesmo quando se livrou das calças. Estava nu, sem mais nenhum vestígio de epiderme. Caiu de joelhos ao lado da mesa. Uma pontada aguda lhe veio do estômago. Colocou as mãos descarnadas sobre a barriga. Com um grito, suas vísceras se abriram e, de lá, milhares de borboletas rodopiaram no ar.
Só redobrou a consciência quando, ao fim da noite, sentiu um toque no ombro. Era o outro.
- Cara, você está bem? Não vá me dizer que dormiu sobre a mesa o dia inteiro?!